domingo, 20 de agosto de 2023

 JOGOS OLÍMPICOS DE LONDRES 1908

 

Desportivismo à moda antiga       

Fair-play

 

 

Um episódio de um tempo ido mas de um incomensurável alcance.

O significado, um desfecho tão raro no conturbado mundo do desporto em que a luta pela vitória está muitas vezes aliada a comportamentos execráveis.

Felizmente, este, um exemplo para muitos, aconteceu numa carismática época em que as olimpíadas buscavam, finalmente, o rumo desejado, nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1908, a demonstração inequívoca do desportivismo, do tão apregoado fair-play.



O público assistente seguia as provas de luta greco-romana que se desenrolavam ao alcance dos seus olhares e que as sucessivas eliminatórias haviam determinado dois finalistas, dois lutadores suecos, o Frithiof Martenson e o Mauritz Andersson.

Em determinado momento do combate, um dos atletas, Mauritz Andersson, solicitou ao juiz a sua vontade, a sua intenção de interromper por algum tempo o combate a fim de permitir que o seu adversário recuperasse de algo que o apoquentava, evidente no seu estado físico que ia dando conta de algo anormal.

Na verdade, Frithiof Martenson estava com algo, um problema impeditivo de continuar. Mais ainda, Andersson voltou a informar o juiz que aguardava o tempo que fosse necessário para a recuperação do rival porque era seu desejo que a vitória fosse decidida em combate e não por uma qualquer lesão.

O juiz atendeu o atleta e deu indicações ao adversário para interromper o combate, ser visto e … curado!

E foi mesmo porque o resultado final haveria de ser o contrário do que se esperava.

O atleta lesionado recuperou da lesão temporária e parece ter entrado com forças redobradas porque acabaria por vencer o combate.

Martensson acabou por derrotar o amigo que permitiu a sua recuperação física quando poderia beneficiar da sua lesão e vencer o combate.

Impensável nos dias que correm, neste mundo do desporto, um inusitado e louvável comportamento.

Incrível.

Autor: Ilídio Torres

Membro da Academia Olímpica de Portugal

Comité Olímpico de Portugal

JOGOS OLÍMPICOS DE SAINT LOUIS 1904

 

ORGANIZAÇÃO:

“A bizarria e o irreal”

 


Era a terceira edição dos Jogos Olímpicos, realizada nos Estados Unidos, na cidade de Saint Louis, em 1904 - também, a terceira vez que um acontecimento daquele tipo, a exemplo das anteriores de Paris, em 1900, e de Atenas, em 1896, iria ficar manchada por uma certa bizarria, relativamente à organização e ao facto de serem integrados na Exposição Universal.

A Maratona foi uma das provas afetadas por alguma confusão e até irregularidade - a mais carismática e a mais nobre, a fechar o calendário organizativo.

Os terceiros Jogos foram, então, destinados para Saint Louis, escolha que se ficou a dever à intervenção de Franklim Roosevelt, Presidente dos Estados Unidos que puxou a organização para aquela cidade, contrariando o projeto de Chicago, cidade para onde estava inicialmente destinada - um dos argumentos invocados foi a realização da referida Feira Mundial de 1904.

A Maratona de Saint Louis foi, assim, disputada sob o signo da jactância, uma série de episódios a ultrapassar o caricato, uma organização que denunciou uma tremenda ignorância relativamente ao fenómeno desportivo - neste caso, a Maratona foi cumprida num percurso muito estranho e irregular - aquele dia 30 de agosto de 1904 foi um autêntico massacre para os trinta e dois atletas oriundos de quatro nações.

A primeira reação emanou do público assistente, há muito, farto de aguardar pela chegada dos atletas, quando precisamente, três horas e treze minutos após a partida, chegou ao Estádio o primeiro atleta, Fred Lorz, um americano, de imediato, aclamado vencedor e até alvo da homenagem de Alice Roosevelt, a filha do Presidente Americano que posou ao lado do pretenso vencedor da Maratona.

Nesse crucial momento da consagração o Estádio abanou com uma notícia que denunciava o atleta Fred Lorz como um batoteiro porque havia sido descoberto - cumprira onze milhas do percurso à boleia de um carro - apenas havia corrido quinze quilómetros e apanhou a dita boleia até faltarem sete quilómetros para o fim da prova!

Fred Lorz

Colocado perante esta acusação Lorz teve a hombridade de confessar o crime sendo de imediato afastado da competição após sancionada a sua desclassificação.






Graças a esse estratagema foi o primeiro a cortar a meta, mas acabou por ser descoberto e assim declarado vencedor o segundo atleta a cortar a meta, Thomas Hicks, um norte-americano de origem inglesa, mas também não isento de acusações relativas a atos irregulares detetados durante o caminho desde a ingestão de produtos estranhos para o tempo, caso do álcool e da estricnina.

Em termos atuai,s a ingestão desses produtos enquadrar-se-ia no fenómeno do doping. Teve início a dez milhas da chegada no momento em que, exausto, anunciou a sua desistência, intenção que foi contrariada pelos amigos que o acompanhavam de perto num carro. Declarou estar exausto, não aguentar nem mais um centímetro! Um novo esforço e uma nova paragem, outra dose de estricnina, desta feita com dois ovos, acompanhada de uma refrescadela de água oriunda de um carro que acompanhava os atletas. Uma nova paragem e uma nova insistência, até à meta. A última dose fez com que o atleta chegasse ao fim do percurso com dez quilos a menos, cambaleando, a dar conta de si, mas com alucinações! Segundo uma declaração médica Hicks correu um grande risco pois uma nova dose de estricnina mais poderia ter sido fatal - cortou a meta amparado por dois homens.

Muitos anos então se passaram até ao momento em que a ingestão de produtos capazes de alterarem as capacidades atléticas e de resistência e assim obter melhores resultados se encontra sob a vigilância apertada da lei antidoping. Estava-se quase a um século de distância desse fenómeno “doping”, numa altura em que decorria uma florescente implementação do Ideal Olímpico, um tempo em que as sucessivas edições dos Jogos iam rompendo os quadriénios previstos.


Thomas Hicks

Os atletas viviam ainda em condições muito precárias de treino e sofriam pressões constantes hoje tidas como ultrapassadas. Em Saint Louis, aquele dia de Agosto, apresentava-se demasiado quente, o ar quieto com ausência total de vento, verdadeiramente quente e húmido. A maratona foi iniciada às 14 horas e 30 minutos sendo o percurso muito duro com um início de cinco voltas ao Estádio Olímpico e a fuga para a estrada em terra batida e com a agravante de alguns automóveis a levantarem mais poeira. A primeira coisa a fazer-se sentir demonstrou a dificuldade dos atletas na respiração, uma prova tão dura que dos trinta e dois corredores, apenas catorze completaram a prova.

Toda a corrida foi um caos com as sucessivas desistências, atletas a vomitar e problemas estomacais, ferimentos por quedas.

Saint Louis 1904

A bizarria e o irreal

 JOGOS OLÍMPICOS DE INVERNO 

 INNSBRUCK 1964

 


EUGÉNIO MONTI

Tributo à glória

 

            Instado, Monti responderia que o afastamento

            dos britânicos iria possibilitar a vitória italiana,

            coisa que não teria valor nenhum porque ele

            mesmo se recusava a lutar contra vencidos!

 

 

 


 

Nove vezes campeão mundial e seis medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Inverno, um dos mais categorizados atletas de bobsleigh, uma modalidade que dominava e onde conseguiu atingir velocidades incríveis.

Para além dos seus feitos atléticos. foi campeão do desportivismo, o justo prémio de um extraordinário comportamento humano protagonizado nos Jogos de Inverno de Innsbruck, em 1964.

A título póstumo, seria agraciado pelo Comité Olímpico Internacional com a Medalha Pierre de Coubertin, a primeira vez que a distinção foi atribuída, um prémio eternizador da figura do visionário e idealista dos Jogos Modernos, uma autêntica Comenda que se destina a glorificar quem se evidencie por nítidas e louváveis atitudes do mais puro Espírito Olímpico. Esta distinção, uma medalha em oiro maciço, não tem, como objectivo único, premiar o desempenho técnico e atlético, uma atenção mais centrada nas qualidades humanas, reveladoras de comportamentos no âmbito da ética desportiva.

O ser humano em questão, um homem na completa dimensão do termo, o italiano Eugenio Monti, protagonista de significativos atos, capazes de lançarem o repto sobre quão difícil será encontrar, no mundo, alguém capaz de algo semelhante!

 

Eugenio Monti

Aconteceu na cidade austríaca de Innsbruck, na sede dos referidos Jogos Olímpicos de Inverno, de 1964 onde Monti era o capitão da equipa italiana na modalidade de trenó, na especialidade de duplos. Em determinado momento da prova, o italiano deu conta da existência de uma avaria técnica no trenó britânico de Tony Nash e Robin Dixon, à primeira vista, um problema de difícil resolução. Constatou que a correia do trenó estava deteorada, a possível causa de uma hipotética ou inevitável desistência. Quem presenciou a cena não pode reprimir um sentimento de plena admiração ou até estranheza relativamente à atitude de Monti que, num gesto de pura fraternidade, ele mesmo retirou a correia do trenó italiano, o seu, e a entregou aos britânicos - estes conseguiram resolver a  avaria do seu trenó, a tempo de participar na prova. Tratava-se de uma semifinal para a qual os italianos já se encontravam apurados.

Inacreditável!

Os britânicos acabariam por vencer essa série e o ansiado apuramento!

Instado sobre este procedimento Monti responderia que o afastamento dos britânicos iria possibilitar a vitória italiana, coisa que não teria valor nenhum porque ele mesmo se recusava a lutar contra vencidos! E a final iria ditar o que se temia: os britânicos venceram, conquistaram a medalha de oiro e os italianos de Monti quedaram-se por um terceiro postos!

Mas o comportamento de Eugenio Monti não iria ficar por aqui.

Nos mesmos Jogos, na primeira eliminatória da prova de trenó de quatro, a equipa do Canadá, favorita à vitória final, teve uma avaria, denotando incapacidade em resolver o problema. Sem outro motivo que não fosse o sentimento de ajuda, a equipa de Monti foi em socorro deles e disponibilizou-lhes a sua própria equipa de mecânicos que, eficaz, ainda conseguiu reparar, a tempo, o trenó.

bobsleigh


Um simples parafuso resolveu a questão!

Conforme o sucedido com os britânicos na prova de trenó de dois, a equipa do Canadá conseguiu reparar o seu veículo e ... deslizar para a vitória final, acabando os italianos por se quedar noutro terceiro lugar, uma medalha de bronze!

Duas derrotas ou duas vitórias de algo fantástico que ultrapassa a normalidade.

Eugenio Monti, era natural de Auronzo e seguiu os pais até Cortina d’Ampezo onde estudou e teve a sua prática desportiva, primeiro com muito sucesso em 1945 nos campeonatos estudantis e depois, em 1949, já campeão de Itália de ski em slalom gigante e especial. Apesar de ser uma promessa séria  foi obrigado a abandonar a modalidade devido a uma inesperada lesão, uma rotura de ligamentos, razão porque enveredou pelo trenó onde chegou a campeão do mundo e olímpico.

Teve um fim de vida muito triste.

Antes de ser apanhado pela doença de Parkinson foi nomeado Comendador da República Italiana, uma das maiores distinções concedidas a um atleta. Teve de suportar um problema conjugal, a separação da esposa, uma filha que emigrou para os Estados Unidos, a morte de um filho apanhado nas teias da droga vitimado por uma overdose e ...ele, condenado pela terrível Parkinson - em 30 de Novembro de 2003 ... o suicídio!

Melhor sorte merecia.

sábado, 19 de agosto de 2023

 

JOGOS OLÍMPICOS DE PARIS 1900

 

Michel Theato

A maratona – “um vencedor contestado”

 

 


 

As quatro dezenas de quilómetros prestes a serem cumpridas, um esforço fora do comum – ânimo recuperado e o atleta a parecer ganhar forças quando vislumbrou a meta naquela prova da Maratona dos Jogos Olímpicos de Paris, em 1900.

O presumível vencedor, um campeão olímpico, haveria de sofrer o mais estranho dos choques quando, após cortar a linha da chegada, levantou os braços a denunciar uma natural e justificada expressão de alegria e satisfação.

Estranhamente, para ele, o pior estaria para acontecer quando tomou consciência de que a receção por ele esperada, nada tinha a ver com as habituais manifestações de júbilo – caladinho que nem um peto.

De imediato, buscou uma justificação para tão estranho comportamento e quase desfaleceu quando o informaram que era o quinto classificado!

Impossível!

A exclamação solta por Arthur Newton, o desesperado e desiludido atleta, repetida, tantas as vezes, quantas as forças lho permitiram. Algum tempo decorrido, já mais calmo, abeirou-se dos juízes de chegada e disse-lhes que a partir de determinada parte do percurso deixou o pelotão para trás e mais ninguém, até ao fim da prova, lhe passou à frente!



De imediato se apercebeu que, face às informações recebidas e aos resultados apontados, alguém havia percorrido outro caminho que não o oficial, encurtou a distância e zarpou para a meta – quatro, em seu entender, foram os prevaricadores, ajudados ou não por alguém, chegaram à sua frente!

Neste clima de desconfiança ou não aceitação do resultado, um outro atleta norte-americano, Richard Grant, foi também denunciar à organização que, em determinado momento da prova, foi ultrapassado pelo já anunciado, Michel Theato, montado numa bicicleta!

O certo é que o luxemburguês, a representar a França, foi mesmo considerado vencedor e as reclamações efectuadas não foram atendidas.

Uma história a rondar o anedótico, prenhe de fantasia ou uma invenção.

Esta prova da Maratona dos Jogos Olímpicos de Paris, em 1900, parece ter deixado dúvidas ou desconfianças relativamente ao seu vencedor, Michel Theato, um cidadão luxemburguês que muito novo, com doze anos, emigrou para França e acabaria por ser inscrito como francês!

Quem mais barafustou contra a vitória do francês emprestado foram os americanos, sem sucesso.

O fenómeno do Olimpismo Moderno estava a dar as primeiras passadas e as organizações das primeiras edições manifestaram-se muito aquém do que era exigido, um começo titubeante, um desempenho organizativo que aos poucos ia ganhando corpo e atingindo níveis de exigência normais.

Relativamente à vitória de Michel Teatho e a hipótese colocada de que havia percorrido um caminho diferente do programado, não pode ser posta fora de hipótese atendendo a que ele conhecia perfeitamente as ruas de Paris, atalhos que dominava, muito bem, dizem que devido à sua profissão. Informações dão-no como empregado de uma padaria, uma mais-valia para ser um conhecedor das ruelas de Paris onde distribuiria o pão. Esta teoria é afastada por alguém que afirma não ser padeiro, antes carpinteiro!

Os historiadores Olímpicos André Drevin e Raymond Pointu ocuparam-se deste problema tendentes a condenar Theato, um facto que perece nas dúvidas do tempo e nas hipóteses porque também é verdade que ninguém tem a certeza do que realmente aconteceu.

Relativamente à naturalidade de Michel, foi confirmado que por altura da realização dos Jogos de Paris, o luxemburguês deveria estar no serviço militar daí a sua possível naturalização antes de 1900. De igual modo, o Luxemburgo nunca reivindicou a vitória ou então eram coisas que passavam à margem da lei.

Relativamente às acusações de que o vencedor tenha percorrido outro trajeto, a deitar água na fervura, surgiu o jornalista Frantz Reichel que fez a cobertura da Maratona para “O Jornal dos Desportos”, afirmando que Michel Theato cumpriu o traçado.

A completar este cenário apareceu Dick Grant a processar o Comité Olímpico Internacional por ter sido atropelado por uma bicicleta deitando as culpas para a organização e alegando que o veículo estava a dar apoio a Theato.


Maratona de Paris 1900


Otto Mayer, representante do COI, confessou-se impotente para resolver este caso alegando não estar na previsão da organização.

A suspeita da vitória do luxemburguês continuou para muita gente, em especial para os anglo-saxões que se inclinavam para o não cumprimento do percurso oficialmente traçado.


Entusiasmado com a vitória na Maratona de Paris, em 1900, Michel Theato optou pela profissionalização uma coisa que parece não ter resultado em virtude da ausência do conhecimento público de possíveis vitórias. Também não teve uma vida muito longa, faleceu em 1919 com quarenta e um anos.

Interessante que só decorridos dois anos é que o Comité Olímpico Internacional homologou a vitória de Michel Theato.

 

JOGOS OLÍMPICOS DE PARIS 1900

 

Maxwell Long

“Aplausos desviados”


 

 

 

Segundo os cânones hoje defendidos as três primeiras edições olímpicas estiveram muito aquém do desejado, muita desorganização e alguma bizarrice até.

Depois do início prometedor de Atenas, em 1896, os seguintes de Paris baralhados e integrados numa Exposição Universal, não estiveram isentos de uma certa onda de confusão.



Estamos na prova dos 400 metros disputada num clima de duelo entre franceses e americanos. Um atleta se destacou, o americano Maxwell Long que haveria de cortar a meta em primeiro lugar. Apesar da alegria da vitória mais entusiasmado ficou quando sentiu estar a ser ovacionado, um facto que acabaria por deixá-lo perplexo porque de imediato estranhou uma assistência francesa estar a aplaudir um atleta estrangeiro. Uns momentos mais e a confusão haveria de ser desfeita: o público assistente francês não estando a par da fisionomia dos atletas, percebeu que o que acabava de cortar a meta era francês porque usava uma camisa azul e branca – simplesmente, era a cor da Universidade Americana de Columbia ali estampada num atleta americano.

Quando o vencedor foi anunciado, aconteceu a deceção total e os aplausos terminaram ali mesmo porque Maxwell Long era na verdade um homem americano daí a improbabilidade de ser aplaudido.

Falta de desportivismo - Coisas de outrora!

 

Maxwell Long

 

 

JOGOS OLÍMPICOS DE ATENAS 1896

Leon Flameng

“Desportivismo puro”



 

“Uma avaria mecânica obrigou o grego a encostar à berma da pista do velódromo - espanto para quem assistia, o francês Leon Flameng, de imediato, interrompeu também a sua prova e foi ao encontro do adversário -  chegou-se até junto de Georgios Kolletis e ajudou-o a solucionar o problema“

 

Jogos Olímpicos de Atenas, 1896, a primeira edição da Era Moderna - de todas as modalidades integrantes, no ciclismo, a prova dos cem quilómetros demarcou-se como a mais penosa, com o desempenho da maioria dos atletas a quedar-se por um nível muito aquém das expectativas geradas.



De uma dezena de ciclistas participantes, somente dois, o francês Léon Flameng e o grego Geórgios Kolletis, conseguiram demonstrar valia e capacidade para tão custosa tarefa - uma prova, inicialmente destinada para um percurso de estrada acabou por ser realizada no Velódromo de Falero ou de Nova Faliro onde, trezentas voltas completaram e justificaram a distância estabelecida.  Esta infraestrutura, destinada às provas de ciclismo, haveria de, posteriormente, ser transformada no Estádio Karaiskakis, e tinha os seus planos de construção inspirados no velódromo francés de Arcachón, uma sugestão de Pierre de Coubertin.

Com um já considerável número de quilómetros vencidos, os dois atletas foram-se distanciando do resto do pelotão, um reduzido número que ia ficando para trás, acusando a fraqueza das suas pernas - o francês e o grego foram, em gradual vantagem, sugando o resto do percurso.

De repente, o azar colou-se a um deles!

Uma avaria mecânica obrigou o grego a encostar à berma da pista e, espanto para quem assistia, Leon Flameng, de imediato, interrompeu também a sua pedalada e foi ao encontro do adversário - uma atitude de puro desportivismo, um comportamento que haveria, no futuro, ser apodado de fair-play, um neologismo a vogar pelos meandros da língua mas, infelizmente, hoje, gasto de tão evocado mas não cumprido, nem respeitado como merecia!

O gesto do francês constituía, sem dúvida, a expressão de um genuíno e saudoso tipo de atitude humana, esse tão bafejado desportivismo, naquele tempo vivido e liberto ainda das desmesuradas pressões que no futuro o iriam abastardar - tributo a Pierre de Coubertin que, numa atitude pedagógica, sempre defendeu e valorizou o interesse “na participação desportiva, independentemente do resultado”. O episódio, agora evocado, deverá ser considerado, como a primeira, conhecida e oficial amostragem da perene demonstração desse mesmo autêntico espírito olímpico.




A Grécia recebia os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, dois anos decorridos sobre o Congresso da Sorbornne, em Paris, em 23 de Junho de 1894, uma assembleia magna que reuniu personalidades de vários países e de onde brotou a formação do Comité Olímpico Internacional - Pierre de Coubertin via, assim concretizado o seu desejo da recriação olímpica e a internacionalização daquele fenómeno desportivo: dez países, trezentos e onze atletas e nove modalidades desportivas presentes em Atenas para a sua efetivação.

Retomando o fio motivador, no desenrolar da referida prova de ciclismo, a supremacia de ambos, do francês e do grego, foi sendo demonstrada e conforme a distância ia sendo cumprida, quilómetro a quilómetro, ambos foram deixando fora de hipótese os restantes ciclistas, numa época em que a modalidade ainda se apresentava muito insipiente.

Leon Flameng ajudou mesmo Geórgios Kolletis a solucionar o problema mecânico. Após a reparação da avaria, ambos montaram, novamente, as suas máquinas e deram continuidade à pedalada, rumo à meta. Coube ao francês o mérito e a satisfação de a cortar em primeiro lugar, com algum avanço sobre o grego - um prémio duplo - gastou 3h 8m e 19s para satisfazer aqueles cem quilómetros  tornava-se campeão olímpico.

Leon Flameng foi levado em triunfo pelos espectadores mais entusiasmados, um  magote de assistentes de entre os possíveis vinte mil presentes que vibrou com o seu êxito - cortaria a meta com uma bandeira francesa, ondulante, presa a uma das pernas. Nestes Jogos de Atenas de 1896, Flameng ainda conseguiu o segundo lugar na prova de 10 quilómetros com o mesmo tempo do seu compatriota Paul Masson, gastando dezassete minutos, cinquenta e quatro segundos e duas décimas - foi terceiro na prova de sprint com o tempo de 27 segundos.  Independentemente da popularidade granjeada naqueles Jogos Olímpicos de Atenas, Flameng gozava já de um certo prestígio entre os franceses embora tivesse confessado o seu desagrado por nunca ter participado num campeonato mundial. Ficou como um herói da sua pátria.

Quando participou nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 1896, contava apenas dezanove anos de idade, muito novo ainda quando, na presença do monarca grego, George I, recebeu a Medalha que ficaria para a história como o primeiro campeão olímpico do ciclismo.








Dez anos decorridos, iria tombar, incluído no extenso rol dos atletas olímpicos imolados na Primeira Grande Guerra, uma morte adiada porque já antes havia passado por momentos aflitivos. Era piloto aviador e no posto de sargento, no dia 21 de Junho de 1916, quando realizava um voo de reconhecimento sobre Verdun, foi surpreendido por um ataque inimigo – o companheiro, o piloto navegador, foi abatido e ele mesmo sofreu um tiro no rosto, um desastre que não o impediu de continuar ao comando do seu avião e conseguir chegar a terra firme. Miraculosamente, havia sobrevivido e após ser retirado da carlinga, seguiu para um hospital de campanha em Vadelaincourt onde sofreu uma intervenção cirúrgica e foi alvo de uma cuidada atenção.

Três meses decorridos, apesar de ainda estar sob vigilância, tomou a decisão de abandonar o hospital e continuar a tarefa que havia sido interrompida, mesmo contrariando os avisos médicos – uma teimosia justificada pelo seu espírito guerreiro e o seu amor à pátria, reconhecido por duas citações para a Cruz de Guerra.

Após retomar as funções de piloto, Flameng iria realizar voos de reconhecimento nas regiões de Thionville, Hayange e Rombach, as zonas mais afetadas pela ação inimiga. Pilotava um bimotor numa missão de ensaio e foi num desses testes que iria encontrar a morte devido a uma avaria mecânica - a máquina despenhou-se e ele não foi capaz de abrir o paraquedas.

Um campeão infeliz!